Anotações de leitura
Orgânico
Inventaram o “alimento orgânico”. Ora, isso que se compra no supermercado com o selo de “orgânico” é um produto, às vezes sem veneno, mas não é algo orgânico. Não é produzido pelo saber orgânico, não é voltado para a vida. Se um quilo de carne orgânica é muito caro, o pobre não pode comprar; e se o pobre não pode comprar, não é orgânico. Orgânico é aquilo que todas as vidas podem acessar. O que as vidas não podem acessar não é orgânico, é mercadoria — com ou sem veneno.
Antônio Bispo dos Santos em A terra dá, a terra quer
(Anotado em 26/03/2026)Outras maneiras de contar
Não creio que o desafio antiimperialista representado por Fanon e Césaire e por outros como eles tenha sido levado a cabo. E também não os levamos a sério como modelos ou representações do esforço humano no mundo contemporâneo. Na verdade, Fanon e Césaire — é óbvio que falo deles como tipos — atacam diretamente a questão da identidade e do pensamento identitário, presença secreta na reflexão antropológica atual sobre “alteridade” e “diferença”. O que Fanon e Césaire exigiam de seus militantes, mesmo no auge da luta, era que abandonassem idéias fixas de identidade estabelecida e definição culturalmente autorizada. Tornem-se diferentes, diziam eles, para que seu destino como povos colonizados possa ser diferente; é por isso que o nacionalismo, apesar de sua óbvia necessidade, é também um inimigo. Não posso dizer se agora é possível para a antropologia enquanto antropologia ser diferente, isto é, esquecer-se de si mesma e se tornar outra coisa como maneira de reagir à luva jogada no chão pelo imperialismo e por seus antagonistas. A antropologia, tal como a conhecemos, talvez só possa continuar de um lado da divisão imperial, para permanecer como um parceiro na dominação e na hegemonia.
Por outro lado, alguns dos esforços críticos recentes para reexaminar a noção de cultura de alto a baixo talvez estejam começando a contar uma história diferente. Se não julgamos mais que a relação entre as culturas e seus adeptos é perfeitamente contígua, totalmente sincrônica e correspondente e se pensamos nas culturas como fronteiras permeáveis e, no conjunto, defensivas entre sociedades, então aparece uma situação mais promissora. Desse modo, ver os Outros não como ontologicamente dados, mas como constituídos historicamente, seria desfazer os vieses exclusivistas que atribuímos com tanta freqüência às culturas, em especial à nossa. As culturas podem então ser representadas como zonas de controle ou de abandono, de lembrança e de esquecimento, de força ou de dependência, de exclusividade ou de partilha, tudo isso acontecendo na história global que é o nosso elemento. O exílio, a imigração e o cruzamento de fronteiras são experiências que podem, portanto, nos proporcionar novas formas narrativas ou, na expressão de John Berger, outras maneiras de contar. Não posso dizer se esses movimentos novos são de mais fácil alcance apenas para figuras visionárias excepcionais como Jean Genet ou para historiadores engajados como “Basil Davidson, que atravessam e transgridem as barreiras nacionais, do que para os antropólogos profissionais. Mas quero dizer de qualquer modo que a força instigadora desses exemplos é de notável relevância para todas as humanidades e ciências sociais enquanto elas continuam a lutar com as imensas dificuldades do império.
Edward W. Said em A representação do colonizado - Os interlocutores da antropologia (traduzido por Pedro Maia Soares)
(Anotado em 23/03/2026)Um mundo novo é tão somente uma mente nova
O primeiro passo na direção da cura para a doença é perceber que ela existe. A padronização robótica da consciência norte-americana é um efeito colateral de uma tecnologia defeituosa e problemática, assim como a desordem ecológica é outro sinal. E tais distúrbios sistêmicos reforçam cada fatalidade até a mudança metabólica completa. Somos capazes de discutir com um paciente por anos a fio sobre a sua doença. Mas o fato é que ele é a sua própria doença. É isso que devia ser ensinado a ele. O que precisamos reconhecer é que a nossa consciência é muito reduzida. “Um mundo novo é tão somente uma mente nova”, como disse William Carlos Williams uma vez. Estar apto para resolver problemas depende principalmente de se estar consciente de que eles existem.
Allen Ginsberg em entrevista concedida a Paul Carroll em 1969, compilada no livro Mente espontânea: Entrevistas 1958-1966 (traduzido por Eclair Antonio Almeira Filho, Ana Vázques e Sirlen Loyolla)
(Anotado em 20/01/2026)Quando?
Evidentemente, a história da promoção a chefe de loja não passava de conversa para boi dormir: uma notícia falsa dada da maneira mais deslavada pelo filho, e recebida como verídica da maneira mais inocente pela mãe. Mas, afinal, quando foi que brotou alguma felicidade, por menor que fosse, num coração conhecedor dos fatos em toda sua profundeza? Quando foi que houve alegria, senão alimentada por completas mentiras ou verdades desfalcadas? Sempre que a realidade mete o pé na porta, não há sorriso que não trate de escapulir pela janela. Todo felizardo é, antes de mais nada, um iludido.
José Falero em Os Supridores
(Anotado em 19/08/2025)Observação
A história da alma de uma pessoa, por mais mesquinha que seja, quase chega a ser mais curiosa e mais útil que a história de um povo inteiro, particularmente se ela for fruto da observação de uma mente amadurecida e se ela for escrita sem o intuito vaidoso de despertar simpatia ou admiração.
Mikhail Liérmontov em Taman (traduzido por Aurora Fornoni Bernardini)
(Anotado em 21/05/2025)Éden
A realidade é tristemente banal. As ilhas do Sul [arquipélagos da Oceania e arredores] foram não só o saco de gatos do sonho mas também o ponto de encontro dos predadores. Onde quer que existisse, era cortada a madeira de sândalo. Pescavam-se sem moderação o pepino-do-mar e a baleia, promovia-se um grande massacre de tartarugas marinhas e pássaros. Depois, quando só restavam os homens, os plantadores de Queensland ou Fidji, os mineiros da Nova Caledônia os usaram como escravos. As ilhas do “paraíso” foram antes de mais nada um inferno para os condenados e as prostitutas. Em épocas mais recentes, o Pacífico foi palco de uma guerra implacável, e depois se transformou em campo de experiências de armas nucleares a céu aberto. Caberia reclamar? Esses arquipélagos distantes não eram desde a conquista mare nullius? Não estavam dados todos os direitos para deles dispor, assim como de seus habitantes, sem a menor vergonha? Dividido, retalhado, repartido entre as grandes potências coloniais, o continente pacífico tornava-se invisível. Uma inexistência, povoada por selvagens, outrora canibais. Ou, o que dá no mesmo, um Éden onde tudo era abundante, as flores, os frutos, as mulheres.
J. M. G. Le Clézio em Raga (traduzido por Clóvis Marques)
(Anotado em 26/01/2025)Cafonas
A derrubada de estátuas é saudável e um símbolo de sociedades democráticas. A queda da ditadura soviética e do autoritarismo assassino que colonizou boa parte da Europa Central e do Leste Europeu costuma ser marcada pela derrubada das estátuas de Lênin. Em nenhum momento se propôs proibir seus livros ou se vilanizou o personagem histórico. Quem foi “apagado” não foi o pensador bolchevique, o líder da Revolução de 1917 e o chefe de Estado, mas o mito leninista que conferia legitimidade ao regime de terror que governava aqueles países. Não se trata de revisionismo histórico ou de julgamento moral de figuras do passado, mas sim de mitos sobre os quais poderes fáticos do presente justificam seu exercício de poder.
As estátuas expressam e alimentam a megalomania, a vontade de poder, uma série de valores negativos para uma sociedade democrática. Acredito que não se faz uma sociedade democrática com a presença delas. Sou inclusive favorável à derrubada de todas: não apenas dos escravocratas, dos colonialistas, dos ditadores. A ideia de estátua alimenta uma mitologia que nos faz depositar nossa fé em líderes despóticos, sejam eles eleitos ou não. Desde que a estátua não tenha nenhum valor artístico, poderia ser derrubada. A maioria delas é de péssimo gosto, aliás. Costumam ser obras neoclássicas cafonas. Às bonitas, reservemos uma galeria de algum museu.
Miguel Lago em Derrubem as estátuas, publicado na revista piauí nº 168
(Anotado em 26/12/2024)Uma estada em país estrangeiro
O tempo é um ponto no que diz respeito à vida humana, ao passo que a substância flui, a percepção sensorial é imprecisa, a composição do corpo inteiro facilmente putrescível, a alma é um pião que rodopia, o destino difícil de ser previsto e o prestígio carente de discernimento. Em síntese, tudo aquilo que diz respeito ao corpo é um rio, enquanto o que diz respeito à mente ou à alma é um sonho e uma fumaça; quanto à vida, é uma guerra e uma estada em país estrangeiro, a fama dada na posteridade um esquecimento. O que, então, é capaz de nos oferecer uma orientação? Somente a filosofia. Esta requer vigiar para que a divindade interior se mantenha não violenta e incólume, acima de prazeres e sofrimentos, sem agir de maneira aventureira, destituída de meta, nem mentirosa e hipócrita, dispensando absolutamente a ação ou inação alheias; ademais, aceitar todo tipo de acontecimento e o lote que nos cabe, seja qual for, como provenientes daquele lugar, seja onde for, de onde nós mesmo provimos; e principalmente aguardar a morte em uma disposição favorável e tranquila, porquanto ela nada é senão a dissolução dos elementos a partir dos quais cada ser vivo é composto. Se, assim, para os próprios elementos nada há de se temer no fato de cada um se transformar continuamente no outro, por que temer e preocupar-te com tua transformação e dissolução no conjunto? Isso é conforme a natureza, e nada que é conforme a natureza constitui mal.
Marco Aurélio em Meditações (traduzido por Edson Bini)
(Anotado em 01/02/2023)A voz da floresta
É por isso que devemos nos recusar a entregar nossa floresta. Não queremos que se torne uma terra nua e árida cortada por córregos lamacentos. Seu valor é alto demais para ser comprada por quem quer que seja. Omama disse a nossos ancestrais para viverem nela, comendo seus frutos e seus animais, bebendo a água de seus rios. Nunca disse a eles para trocarem a floresta e os rios por mercadoria ou dinheiro! Nunca os ensinou a mendigar arroz, peixe em lata de ferro ou cartuchos! O sopro de nossa vida vale muito mais! Para saber disso, não preciso ficar com os olhos cravados em peles de imagens, como fazem os brancos. Basta-me beber yãkoana e sonhar escutando a voz da floresta e os cantos dos xapiri.
Davi Kopenawa (redigido por Bruce Albert) em A queda do céu
(Anotado em 06/01/2023)Circuito impresso
San Narciso fica mais ao sul, perto de Los Angeles. Tal como muitos lugares na Califórnia que recebem um nome, era menos uma cidade identificável do que um somatório de conceitos — zonas de recenseamento, distritos para o lançamento de bônus públicos, núcleos de lojas, todos recobertos de vias de acesso a sua própria auto-estrada. Mas tinha sido o domicílio e quartel-general do Pierce: o lugar onde iniciara sua especulação imobiliária dez anos antes, criando o pedestal financeiro sobre o qual mais tarde tudo fora erguido, conquanto ordinário e grotesco, em direção ao céu; e isso, ela supunha, o distinguiria de outros lugares, lhe daria uma certa aura. Porém, se havia alguma diferença vital entre San Narciso e o resto da Califórnia do Sul, não dava para se perceber à primeira vista. Édipa chegou num domingo, dirigindo um Impala alugado. Tudo estava parado. Do alto de uma colina, apertando os olhos contra a luz do sol, viu um vasto conglomerado de casas que, como uma plantação bem cuidada, haviam crescido juntas da terra marrom-escuro; lembrou-se do dia em que abrira um rádio transistor para mudar as pilhas e vira seu primeiro circuito impresso. O turbilhão ordenado de casas e ruas, vistas do alto, surgiu diante dela com a mesma inesperada e espantosa clareza do cartão onde estava gravado o circuito. Embora entendesse ainda menos de rádios do que de californianos do sul, ambas configurações transmitiam a impressão hieroglífica de um significado oculto, de uma intenção de comunicar. Aparentemente não havia limite para o que o circuito impresso poderia ter-lhe contado (caso houvesse tentado descobrir); do mesmo modo, no seu primeiro minuto em San Narciso, uma revelação também tremeluziu um centímetro além do limiar de sua consciência. O smog pairava sobre toda a linha do horizonte, o sol refletido na superfície bege-claro era doloroso; ela e o Chevrolet pareciam estacionados no centro de um instante singular, religioso. Como se, em alguma outra freqüência, ou à margem do olho de um ciclone que girava lentamente demais para que a pele quente de Édipa pudesse sentir seu frescor centrífugo, palavras estivessem sendo ditas. Ao menos, suspeitou que assim fosse.
Thomas Pynchon em O Leilão do Lote 49 (traduzido por Jorio Dauster)
(Anotado em 23/12/2022)